PROJECTO XXL

FINALISTAS DO CURSO SUPERIOR DE FOTOGRAFIA
ESCOLA SUPERIOR ARTISTICA DO PORTO

SR. CINZENTO • ANA PINHEIRO TORRES

ANDROGINIA PT.I • JULIANA SEABRA

PSIQUE • ISABEL SARAIVA

MULHER • RENATA BARGE

CORPO NA NATUREZA • MÓNICA VALENTE

TEMPO BEM FUTURO • ANDRÉ OLIVEIRA

ENCANTO • PAULO DOUTEL

A MINHA TURMA • VÍTOR BOURA XAVIER

O LUGAR DO MORTO • SÓNIA MAGALHÃES

CINCO MONSTROS DA HISTÓRIA DA ARTE • CARLOS BARROS

ANTI-REFLEXO • RITA PINTO

LIBERTAÇÃO DA ALMA • RUI CORREIA

MAIS UM DUPLO • RICARDO MIRANDA

LOBO MAU • RICARDO MOUTINHO

Quando falamos de tendências, falamos de mudanças, de
mudanças de estilo de aqui e dali, e dali e daqui novamente. As
tendências são periféricas, e por tal podemo-nos perder se a nossa
preocupação por elas é cega. Há outra coisa que é central nas
mudanças e se tivermos que dar nome a esta centralidade, e creio que
devemos. O nome é “espírito”.


Minor White in Equivalência: tendÊncia perpétua, 1963.

As imagens dos finalistas que aqui se apresentam cifram-se em projectos livres, de acordo com as mais variadas vontades. Tudo é primeiro ou primário, numa aritmética de coisas simples que transcrevem o todo e no qual se restauram realidades.
Deverá ser entendido que os trabalhos aqui apresentados são apenas uma amostra e não podem, em bom rigor, representar a multiplicidade de preocupações perseguidas pelos jovens fotógrafos que escolheram estudar na Escola Superior Artística do Porto.
Algo que os trabalhos aqui exibidos partilham é porventura um certo modo de experenciar a força persuasiva da Fotografia, tão ambivalente e multifacetada. Com efeito, para além do seu papel de mudar a aparência, as imagens nunca param de exercer a sua habilidade, não em mudar o mundo (nem sequer essa ilusão terá!), mas certamente mudando a percepção que dele temos. Só assim, os vários projectos se detém na lisura do momento, contam uma história exacta, sobre a sensibilidade. Projectos livres, como deve ser. São obras de quem inicia aqui o seu percurso e fazem-no como tem de ser feito, experimentando.

Ângela M. Ferreira
Direcção do Curso de Artes Visuais / Fotografia

 

A FOTOGRAFIA COMO ESPELHO

FINALISTAS DO CURSO SUPERIOR DE ARTES VISUAIS / FOTOGRAFIA
ESCOLA SUPERIOR ARTISTICA DO PORTO

ADRIANA SANTOS

ANA VIANA

ADRIANO RAMOS

DIANA ABREU

MIGUEL PUGA

RENATO SILVA

“A partir de ce moment, la société immonde se rua, comme un seul Narcisse, pour contempler sa triviale image sur le métal. Une folie, un fanatisme extraordinaire s'empara de tous ces nouveaux adorateurs du soleil.”

CHARLES BAUDELAIRE

NARCISO, CARAVAGGIO, 1594-1596

A fotografia como espelho do eu.

Pelo menos desde o século XV que os artistas se representam a si próprios nas suas obras. Qualquer que seja a razão que está por trás da auto-representação, quase todos os artistas ensaiaram esta forma de exploração do eu.

O advento da fotografia veio tornar mais fácil esta difícil tarefa tão só possível, para o retrato fidedigno, através do uso de espelhos. Baudelaire, crítico acérrimo da folia sentida no século XIX com a invenção do daguerreótipo, não tardou em comparar esta adoração pela contemplação da imagem de si com o mito de Narciso.

Desde as suas origens que sobre a fotografia se estabeleceram relações com o espelho, com a capacidade de dar do mundo uma imagem semelhante. E se o retrato, quiçá o género fotográfico mais amplamente desenvolvido, é quase sempre um espelho, o auto-retrato é, desde o primeiro olhar humano para o seu reflexo na água, um espelho do eu, mas também um olhar para lá da imagem no espelho.

O auto-retrato não surgiu logo como um género autónomo do retrato, tendo começado por se introduzir como assinatura em obras maiores, nas quais um pormenor, uma pequena marca, revela a presença do artista. Considera-se Dürer como tendo sido o primeiro artista a criar consistentemente auto-retratos, e Rembrandt como o primeiro a estudar intensivamente o eu através da pintura. A representação do eu faz-se, ora procurando os traços característicos do rosto, e a verdadeira semelhança, ora procurando transmitir o eu que está por trás da aparência. O rosto do artista foi a imagem central da pintura, e foi também parte de uma grande composição na qual é representado simbólica ou metaforicamente. Mas qualquer que seja a forma que os artistas tenham escolhido para construir as suas imagens, e qualquer que tenha sido a razão pela qual o fizeram, eles viram-se obrigados a explorar as suas personas, tanto física como emocionalmente.

No âmbito da disciplina de Retrato foi dada a oportunidade aos alunos de conhecer algumas das tipologias da auto-representação na pintura e a partir daí realizar um auto-retrato fotográfico.

.1 O QUE É QUE EU PROCURO QUANDO OLHO O ESPELHO?

.2 O QUE É QUE ME É CARACTERÍSTICO?

.3 QUEM É QUE EU GOSTAVA DE SER?

.4 QUEM É QUE EU SOU?

.5 O QUE É QUE EU QUERO DAR DE MIM AOS OUTROS?

Estas, entre outras questões subjacentes ao exercício do auto-retrato, terão estado por trás da realização das imagens realizadas pelos finalistas do curso de Fotografia, ora a cópia da cópia do eu, entre o eu real e o eu simbólico, ora “um espaço vazio deixado pela ausência do corpo do autor”, como na fotografia de Miguel Puga.

Catarina Miranda
Docente da UC de Retrato

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